No meio da discussão sobre a atual situação da saúde no Brasil, fala-se muito que o Estado tornou-se refém dos médicos: que estes se agruparam em torno do interesse de alcançar salários cada vez maiores .Este é um prisma.
Na história, a entrada do Estado na atenção à saúde – que se deu, no país, a partir da década de 20 – fez migrar progressivamente o trabalho dos médicos da autonomia para o assalariamento, ao mesmo tempo em que foi promovida a saída desses profissionais das instancias de gestão pelo aviltamento dos salários pagos para postos de trabalho destinados à organização da assistência. (Veja: Ser Médico no Brasil: o presente no passado da Coleção História e Saúde da Editora Fiocruz 2009 da autoria de André de Faria Pereira Neto).
Desde então, a direção das questões da saúde passou para as mãos do governo. Se o Estado se diz refém de alguém ou de algo, ele, a si mesmo, assim se lhe o fez.
A essa expulsão – promovido o desinteresse para com a saúde coletiva – seguiu-se a oferta de trabalho para os médicos nas vias da precarização. Culmina, reativo, o re-arranjo produtivo destes, buscando a cooperativa com forma de re-estabelecer valor para o seu ofício.
Por decorrência da Constituição de 1988, quis o legislativo estabelecer no Art. 6º da Lei Orgânica da Saúde (Lei 8080 de 19 de setembro de 1990) – como atribuições comuns da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios – a ordenação da formação de recursos humanos na área de saúde de modo que estes agissem no seu âmbito administrativo na formulação e na execução da política de formação e desenvolvimento de recursos humanos para a saúde. Daí se depreende, claramente, que o lapso que permitiu a defasagem dos profissionais qualificados deveu-se à omissão e à negligencia do Estado do seu dever de fazer prosperar as competências demandadas para o setor de saúde frente à nova ordem jurídica estabelecida que estende a estende como direito de todos e seu dever.
Não abandonaram, os médicos, o protagonismo nas questões da saúde pública evidente desde Oswaldo Cruz, Carlos Chagas dentre tantos nos seus primórdios e, mais recentemente, por ocasião da constituição do Sistema Único de Saúde, nas atuações de atores políticos e sociais da relevância de Eleutério Rodrigues, Sérgio Arouca e Davi Capistrano.
Se há alguém refém, o Estado, a si próprio o fez.